
Meus amigos que não tem treinamento em ciência são facilmente iludidos pelo que os cientistas chamam de ‘seleção de observação‘, que é quando prestamos atenção nos eventos que confirmam nossas expectativas, quaisquer que elas sejam, e ignoramos (ou desconhecemos) aqueles que negam. Eles são literatos, inteligentes e observadores perspicazes, mas por causa disso, acabam por encontrar padrões onde eles não existem, como no movimento das estrelas (astrologia) ou nas ações das outras pessoas (conspiração).
Nossos sentidos são facilmente desativados pelo que é lugar comum. Mais do que isso, a capacidade de nos auto-iludirmos é uma habilidade fundamental para a importante capacidade de iludirmos os outros, o que, segundo pesquisadores importantes como Robert Trivers e Noam Chomsky, traz grandes vantagens evolutivas.
Mas nem sempre podemos seguir nos enganando, seja com o erro do tipo I como com o erro do tipo II. Ou pelo menos não sem que isso cause grandes prejuízos (materiais, psicológicos ou evolutivos). O maior impedimento para nos auto-iludirmos são “os outros”. As outras pessoas. O ‘papel’, como sempre repete o meu querido amigo João Paulo, é a maior invenção de todos os tempo, pois aceita qualquer coisa que você coloque nele, sem crítica ou reclamação. Mas as outras pessoas podem não aceitar com tanta facilidade que você engane a si mesmo, principalmente quando agir de acordo com uma realidade que não existe afeta a elas.
Uma das coisas quanto a qual mais nos enganamos é o nosso valor. ‘Valor’ entendido aqui de uma maneira ampla. Aquilo que podemos agregar aos outros ou ao mundo.
Um fator complicador para medir o ‘valor’ é que ele depende das circunstâncias, como todo mundo que já ficou em uma festa até o final sabe: a menina mais bonita do final da festa raramente é a mais bonita do início (a não ser que ela chegue e vá embora com você). A primeira coisa a aprender é que no processo evolutivo é que a única estratégia boa o tempo todo é não ter nenhuma estratégia fixa e constantemente reavaliar que estratégia boa o tempo todo.
Todos queremos ser especiais. É compreensível: nossos sentidos não são facilmente despertados pelo que é comuns. Mas a verdade nua e crua é que poucos de nós somos. E quem é que decide o nosso valor? São os outros. Você pode reclamar, espernear, negar, emburrar… não adianta. É assim e ponto. (Tente se contentar pelo menos com o fato de que você ajuda a determinar o valor dos outros)
Todo mundo, tanto homens quanto mulheres, estão em busca de beleza. É muito fácil dizer que os homens querem casar com mulheres bonitas e as mulheres querem casar com homens ricos e poderosos, mas a verdade paradoxal é que a maioria de nós nunca terá chance. Como vivemos em uma sociedade monogâmica, a maioria das mulheres bonitas já estão casadas com homens dominantes. E o Sr. e Sra. “bonitinho” (que as más línguas dizem que são os feios arrumadinhos)? Eles ficam com a 2a opção! Mas e os outros, os feinhos? Esses tem que ficar com a 3a, 4a, 5a opções.
Ah, você vai me falar agora de um amigo seu, feio e pobre, que casou com uma mulher bonita e jovem. Bom, é possível, mas é uma exceção tão grande, que fala a verdade, todo mundo fica perguntando “O que sera que ela viu nele?”
Mas o mais provável, nesse caso, é o que ela NÃO viu em si própria. Nós somos preparados para avaliar, ainda que inconscientemente, as reações das outras pessoas a nós, e assim conhecermos, instintivamente, nosso valor relativo. Bom, a não ser que você seja como o Hal, que mesmo sendo o Jack Black, só se apaixonava por mulheres perfeitas. Não, O amor não é cego.

Você não concorda comigo? Acha que todos são iguais aos ‘olhos de Deus’? Mas o pesquisador Bruce Ellis mostrou que é bem como eu estou dizendo. Ou melhor, eu que estou bem dizendo como ele mostrou que é. E você pode repetir o mesmo exercício que ele fez com trinta voluntários para verificar como funciona o nosso modelo de pareamento associativo.
Ele deu a cada participante um cartão numerado que deveria ficar grudado em suas testas. Cada um podia ver o números dos outros, mas ninguém sabia o seu próprio. A instrução seguinte era simples: eles deveriam formar um par com o maior número que conseguissem encontrar. Então, assim que o jogo começou, a a pessoa com o 30 em sua testa foi cercada por um grande grupo. Isso fez com que ela ajustasse suas expectativas para cima, se recusando a parear com qualquer um, sendo bastante seletivo e eventualmente se pareando com alguém com um vinte e tantos na testa. Já a pessoa com o número 1, depois de tentar em vão convencer o número 30 de seu valor, foi mirando em números mais baixos na escala, até que acabou pareando com a primeira pessoa que o aceitou, provavelmente o número 2.
Já estou vendo os sociólogos todos arrepiados. Bom, posso dizer de outro jeito. Ou melhor, usar as palavras de Vinícius de Moraes:
“As feias que me perdoem, mas beleza é fundamental”.
Quando é o poeta que fala, tem bem menos reclamações.
A natureza se preocupa bem pouco com as frustrações das pessoas. Mas isso não quer dizer que você não precise se preocupar. “Também, não queria mesmo”
Você não pode virar o Brad Pitt de um dia para o outro (ou dia algum) mas pode fazer algumas coisas que além de bem pra saúde (como a ginástica) ou pra cabeça (como ler), podem te fazer galgar uns dois ou três degraus na escala de Ellis. Mas quanto mais cedo você se convencer da sua posição, mais frustrações conseguirá evitar.

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