
Mas não é disso que eu quero falar. Com eu tinha visto a propaganda do colchão em uma revista do Globo fui olhar o caderno Zona Sul, que era revista do dia no jornal. E nem precisei folhear para me deparar com a grande bobagem que era a reportagem da capa: “Palavra Feminina”.
A reboque da pouco-séria mini-série que a Globo está transmitindo, a revista perguntava a várias mulheres da Zona Sul, o que elas queriam.
Não é só que os depoimentos fossem banais, do tipo que Miss daria em concurso, como:
“Dinheiro no bolso e bumbum sem celulite” ou “Equilíbrio espiritual, mental e físico” ou ainda, “Independência financeira, sucesso profissional e amor”. É que toda essa idéia por trás de “o que é que as mulheres querem, é furada.
Explico o porquê. Primeiro, o que as mulheres realmente querem, é que ninguém saiba o que elas querem.
Esqueçam os poderes sobrenaturais do Mel Gibson, ou o talento literário do Jack Nicholson, esqueçam também, por favor, o seriado da Globo. Os estudos de psicologia evolutiva tem mostrado que o a confusão é a principal estratégia das mulheres para avaliar a dedicação dos homens. Quanto mais ele tentar, e quanto menos conseguir, e quanto mais ele continuar tentando, mais interessante ele se torna.
Autores como Robin Baker mostraram que até mesmo a variedade da morfologia feminina, que é o nome científico para o formato do clitóris, é importante para gerar essa confusão nos homens. Isso porque o tamanho e a forma do clitóris, associado a outros fatores, está relacionado com a capacidade das mulheres de alcançarem o orgasmo. Os especialistas classificam o orgasmo feminino em 3 tipos. Aquele obtido sem nenhuma estimulação (os orgasmos noturnos que acontecem, por exemplo, nos sonhos), com estimulação direta do clitóris (que elas alcançam com a masturbação) e o orgasmo vaginal (alcançado apenas com a penetração do pênis). Um pequeno percentual de mulheres, em torno de 5%, não só consegue alcançar o orgasmo em qualquer uma das 3 modalidades, como é capaz de alcançar sempre. Até múltiplas vezes. Outros pequenos percentual, outros 5%, coitadas, nunca, de forma alguma, alcançam o orgasmo. E existe todo o tipo de percentuais entre umas e outras.
Essas distribuição de tipos e formas, entre afortunadas e pobres coitadas, tem apenas um objetivo: impedir que um homem consiga determinar (e aprender), de forma genérica, o que deixa uma mulher satisfeita. Assim, cada mulher que um homem encontra deveria ser um novo desafio para ele. Pode até ser que ele acerte de cara usando o que já aprendeu, mas se quiser mesmo ter sucesso, vai ter que começar do zero aprendendo como fazer ‘aquela’ mulher alcançar o orgasmo. E essa dedicação (ou não) é um fator importantíssimo para diferenciá-lo de outros homens.
Não é só que as mulheres não sabem o que querem. Elas foram preparadas pela seleção natural para não saberem.
Acabei me estendendo na primeira razão, mas quem não gosta de falar de clitóris e orgasmo feminino?
A segunda razão é mais simples. E talvez por isso, mais poderosa. A verdade é que, tantas vezes, ninguém sabe o que quer.
Isso ficou claro na interessantíssima palestra de Malcolm Gladwell no TED: “O que podemos aprender com o molho de tomate?”
Ele fala sobre um estatístico, especialista em pesquisas de opinião, que trabalhou para (e revolucionou) a indústria de alimentos nos EUA. A diferença do cara foi que ele resolveu fazer pesquisas de opinião SEM PERGUNTAR para as pessoas qual era a opinião delas. Ele pediu para um monte de cozinheiros prepararem molho de tomate de todas as maneiras que pudessem imaginar, e descobriu por experimentação, que 1/3 dos entrevistado preferiam o molho extra-suculento. Antes, perguntavam as pessoas: “O que você espera em um molho de tomate?” e a resposta era sempre boba, como:
“Queremos amor, no amplo sentido da palavra”
Eis o que Malcolm disse:
“O pressuposto número um da indústria de alimentos, era que o caminho para descobrir o que as pessoas queriam comer – o que as faria felizes – era perguntar-lhes. E durante anos e anos e anos e anos (…) colocaram todos vocês sentados e perguntavam: “O que você quer em um molho de tomate? Diga-nos o que você quer em um molho de tomate?” E (…) em 20, 30 anos, ninguém, nunca, disse que queria extra-grosso. Ainda que, pelas estatística, pelo menos um terço deles, no fundo de seus corações, realmente quisesse um molho extra-suculento. As pessoas não sabem o que querem! ‘A mente não sabe o que a língua quer.’ É um mistério! E um passo extremamente importante na compreensão nossos próprios desejos e gostos é perceber que nem sempre podemos explicar o que, no fundo, realmente queremos.”
Aprender isso não é, infelizmente, o caminho para compreender o que querem as mulheres. Mas sim o caminho para uma compreensão maior, a de que dificilmente poderemos satisfazer os outros, simplesmente, porque eles não sabem o que os satisfaz.
De alguma forma, acho que isso pode salvar nossas vidas, mais do que ficar em casa com medo de arrastão com hora marcada.

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