O Banquete


A FLIP 2007 foi um banquete. E eu pequei pela gula!

A ironia de Will Self, o carisma de Ishmael Beah, a carioquice de Paulo Lins, a profundidade de J.M. Coetzee, a graça de Ana Maria Gonçalves, Ahdaf Soueif e Mia couto, a angustia de Alan Pauls, as leituras de Nelson rodrigues…

Era tudo imperdível e ao mesmo tempo, impossível assistir tudo (lamentei ter perdido o mexicano Guillermo Arriaga e o israelense Amós Oz). E me deparei com um velho dilema cada vez mais atual: Como acompanhar a incrível produção de conhecimentos do mundo contemporâneo?

Leopoldo de Meis escreveu sobre isso 10 anos atrás: “No século XVIII a biblioteca da universidade de Oxford era uma das maiores do mundo e dispunha de aproximadamente 200 volumes. Se um professor dessa universidade desejasse, nessa época, atualizar seus conhecimentos e se dedicasse à leitura oito horas diárias, lendo se a vinte páginas por hora e descansando aos sábados e domingos, em um ano poderia ler toda biblioteca da universidade”.

O texto segue mostrando que este professor teria então absorvido todo o conhecimento produzido no mundo sem precisar se preocupar com atualizações, pois o ritmo de produção de novos conhecimentos era muito lento. Ele continua mostrando que atualmente são publicados mais de 1 milhão de trabalhos científicos por ano. Apenas na área de bioquímica são 151 revistas que publicam 60.000 artigos por ano, send que só o Journal of Biological Chemistry publica em torno de 500 artigos por mês.

“Se um professor-pesquisador universitário de bioquímica desejar atualizar seus conhecimentos e for capaz de ler um artigo por hora, ler dez horas por dia, todos os dias do ano, incluindo sábados e domingos, então ao fim o ano terá lido somente 6% do que se publicou em bioquímica no período”.

E no ano seguinte terá de se esforçar para acompanhar a nova quantidade de material produzido, além de recuperar os 94% da produção do ano anterior que ele perdeu.

O resultado é uma inevitável especialização em uma área com a generalização dos conhecimentos nas outras. Isso parece que nos deixa com uma raiva do ‘banquete’ pra justificar o problema que na realidade é nosso: A gula!

O problema é que essa gula está desvirtuando a especialização, que é um fato inevitável dentro do sistema (no sentindo de sistema ecológico) e criando um fenômeno descrito por Andrew Oitke como ‘Obesidade Mental’.

Citando o autor: “Qualquer pai responsável sabe que os seus filhos ficarão doentes se comerem apenas doces e chocolate. Não se entende, então, como é que tantos educadores aceitam que a dieta mental das crianças seja composta por desenhos animados, videojogos e telenovelas”.

Ele continua: “O conhecimento das pessoas aumentou, mas é feito de banalidades: Todos sabem que Kennedy foi assassinado, mas não sabem quem foi Kennedy. Todos dizem que a Capela Sistina tem teto, mas ninguém suspeita para que é que ela serve. Todos acham que Saddam é mau e Mandella é bom, mas nem desconfiam porquê. Todos conhecem que Pitágoras tem um teorema, mas ignoram o que é um cateto.”

Fico pensando que não li nem metade das coisas que acho que deveria ter lido. Não li a Ilíada, a Odisséia. e nem a Divina Comédia. E a cada ano que passa mais coisas vão ficando para trás. Ao mesmo tempo, sinto-me lar de tantas banalidades que inevitavelmente encontram seu caminho para dentro do meu cérebro. Eu também tenho meus ‘pneuzinhos mentais‘.

Um biscoito da sorte uma vez me disse: “Você pode ter muitas opiniões, mas isso não quer dizer que você saiba muita coisa”.

Numa das conversas de bar da FLIP, chegamos a conclusão que os sabichões acabam se isolando das relações humanas. Um contato importante com as outras pessoas é o “Isso eu não sei. Você pode me explicar?” Quem entende de tudo deve ser realmente um chato. Um chato solitário.

A gula, a gula é o problema. Acumular conhecimento nem sempre é acumular saber. Não enfiar o patê literário goela abaixo do cérebro ganso é se manter esbelto para permitir que nosso conteúdo vire foie gras de saber.

Assim podemos nos encontrar depois todos no bar pra saber das novidades!

Comments

8 responses to “O Banquete”

  1. aliki Avatar
    aliki

    Comme d’hab, gostei tanto to seu post… Assisti a uma entrevista da FrançOise Giroud aos 83 anos (morreu aos 86), autodidata que foi uma grande mulher- e à tradicional pergunta sobre qual o segredo da sua beleza e vivacidade até depois dos 80, respondeu sem hesitaçâo: “Je n’y peux rien: TOUT m’intéresse!” Sera que é isso que está escrito na sua bandeira, professor?

  2. Mauro Rebelo Avatar
    Mauro Rebelo

    Aliki,você não poderia ter pego mais no ponto! Enquanto estava assistindo uma das palestras, escrevi um texto que não acho que chegarei a publicar porque é carregado de uma arrogância que assustou até a mim mesmo! :-)Mas é isso: Quero aprender tudo! A questão é: de quem? (e ai que reside a arrogância). Um beijo,

  3. aliki Avatar
    aliki

    Güenta que vou catar um koan zen ou até mesmo uma estória do Nasreddin Hodja que é o que vc merece. “Aprender de quem” é pq vc está concentrado nas respostas. Nossa cultura cientifica classifica respostas. E se o mais importante fosse as perguntas?

  4. aliki Avatar
    aliki

    fossem?

  5. Mauro Rebelo Avatar
    Mauro Rebelo

    Aliki, certamente eu tenho a aprender com você. Certa novamente. Obrigado!

  6. Mauro Rebelo Avatar
    Mauro Rebelo

    aliki,Ontem ouvi uma história ótima e lembrei do seu comentário. No livro “Ei! Tem Alguém Aí? de JOSTEIN GAARDER” um menino faz uma pergunta para um ET e esse faz um sinal de reverência, como dando a passagem. O menino sem entender, pergunta “o que ele está fazendo?” O ET responde, “abrindo caminho para sua pergunta. Uma boa pergunta vai longe!”Beijo

  7. Cris Avatar
    Cris

    “E se o importante fossem as perguntas?”. Pô, eu ia justamente contar aqui a história do livro do Jostein Gaarder! Passou na minha frente, você! Mas o mais fantástico é ver que a gente, com freqüência, pensa parecido! E que você ficou ligado na história da mesa do bar!Beijo

  8. João Carlos Avatar
    João Carlos

    Esse tema de “ser soterrado em informação” foi humoristicamente tratado por Stanislav Lem no seu livro “Ciberyad”.Pergunta para o Osame.

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